terça-feira, 14 de novembro de 2017

“The Nalu are recent converts to Islam (Silva 1956; Carreira 1961; Frazão-Moreira 2009), and a pre-Islamic cosmology exists in a syncretic form according to which supernatural beings (genies, or 'irans' as they are called in Guinea-Bissau protect people and the territory. Places where these beings live are considered sacred and, as such, they are preserved as taboo objects and ritual places. In general, natural beings, whether animals or plants, are seen as elements of the world at the same level as humans in a holistic and systemic vision of the universe. This pre-Islamic Nalu cosmology is thus another illustration of what many authors, such as Stathern (1995 [1980]) or Ingold (1996, 2000), have been arguing when they say that non-Western views cannot be adapted to a naturalist eye influenced by an anthropocentric viewpoint and the opposition between culture and nature.”
- Amelia Frazão-Moreira, “Ethnobiological research and the ethnographic challenges in the 'ecological era'”. IN: Etnográfica, outubro de 2015, 19 (3): 605-624.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

¡poema sem título!

[!sem título!]

EM uma tarde ensolarada à beira de um rio
Passares as pontas das unhas em meus dedos
Descendo de modo indiano dos cotovelos
Vossos cabelos negros esvoaçando, quase cobrindo Vosso rosto…
Como Vossos olhos brilham à luz do sol?
Vossa pele aquecida avermelhando…
Vossa mudez diante Baia do Guajará
À vista da Escadinha
Onde, próximo domingo, Batalhão das Estrelas
lançar-se-á.
Posso não estar perto
Incomodando
Importunando
Ou mesmo desejando “bom dia” e perguntando como está e se dormiste bem
Estar perto”
… a um país de distância no mesmo país…
Mas não se engane
Não estarei por perto como na música do Capital Inicial
E sim: em cada Poema e Poesia que lermos
Em cada verso que eu escrever
Toda vez que ouvires cantares Atkinsianos , Grohlianos  e Graffinianos 
E estares despindo a Vós e então
Banhar-Vos
Pois eu serei os versos a Vossos olhos
As melodias a Vossos ouvidos
E a água – seja fria, seja quente –
Em Vosso corpo.
Um dia, esvairemos deste mundo
E seremos somente
Memória e Narrativa
E um dia
Nem isso mais.
Todavia não precisamos de nós somos sussurros no tempo.
De certa maneira, faz-me sentir mal o que sinto por Vós
Faz-me Pior estarmos longe
E não saber como estás
Nem que seja superficialmente…
Somos vítimas de nossas escolhas:
Admito ter escolhido errado por me afastar…
Como um devoto vive e sonha
Sem ter sua Musa?
Mas:
Há como voltar?
Tenho ciência que pode não ser mais como antes
(¿será?)
Mas há como voltar?
Dois pés atrás, receios, limites
– Condições de Temperatura e Pressão Pré-Determinadas.
Permita-me novamente Vosso abraço
Vossa voz e boa-vontade e bem-querer
E “hummmmm’s” em bico.
Todavia
E se não puder, deixarão:
Os céus de ser azuis?
As ondas de correr pro mar?
Literatura-em-Verso de ter sentido?
Mulheres de ter cunho e Todo-Poético
– Principalmente as de Vossos vieses e contornos?
Para Vós, muitíssimo possivelmente
Quase certamente
Não.
Para mim:
inquestionavelmente.

:: Seminários de Pesquisa, Prof. Dr. Douglas Rodrigues da Conceição ::
:: 06 de junho de 2017 ::

terça-feira, 30 de maio de 2017

[poema sem título]

[!sem título!]

AH!, quem me dera, quem me dera
Passar as pontas dos dedos em Vossa barriga
E então Vos abraçar por trás
Afundando o rosto em Vossos cabelos.
Ah, Iansã[1] e Frigga[2] me permitissem
Abrir com as pontas dos indicadores e médios
Vossos punhos cerrados
E então cruzarmos os dedos
E então que tais Mães tragam Chuva
Quando nós de testas dadas
E eu procurar Vosso nariz com o meu
E Vossa boca com a minha
E então Ela à minha.
Comunguemos através de um beijo
Também simultaneamente
Em um abraço 
(a um abraço).
Repouse as palmas das mãos e queixo em meus ombros
Enquanto minhas mãos em Vossa bunda e rosto em Vossos cabelos.
Lágrimas não desatarão Vossa maquiagem
E sim Procela
(mais cedo ou mais tarde suor produzido a dois
[¿será?]
[¡TOMARA!]).
Tomara um dia
Enfim um dia
Finalmente um dia
Nós deitados, enquanto Aiê[3] se desfaz em chuva,
Eu colocando Vossos cabelos atrás de Vossas orelhas
Ver Vossos olhos, à altura dos meus, brilhando a fogo baixo,
Nossos pés se aquecendo juntos
Enquanto adormecemos abraçados
durante esse quase-escurecer.

[1] Nas religiões de matriz africana, deusa dos ventos e tempestades; filha de Iemanjá e irmã de Xangô – deus da justiça –, Ogum – deus dos metais e da guerra –, Ossaim – deus das ervas e da cura –, Omulu – deus das enfermidades – e dos Ibejis – os deuses da infância. 
[2] Segundo vários mitólogos, este nome é um dos vários utilizados para, na mitologia nórdica, designar a deusa Frigg, esposa de Óðinn.
[3] Nas religiões de matriz africana, o mundo material, onde os humanos residem, já que Orum é a morada dos deuses. O mito de sua criação tem várias versões, mas conheço somente as presentes n’As Melhores Histórias da Mitologia Africana, de A.S. Franchini e Carmem Segranfredo (Artes e Ofícios, 2009, 246 páginas) e As Senhoras Pássaros da Noite, de Carlos Eugênio Marcondes de Moura (Edusp/ Axis Mundi, 1994). 



:: Seminários de Pesquisa, Prof. Dr. Douglas Rodrigues da Conceição ::
:: 30 de maio de 2017 ::

domingo, 28 de maio de 2017

¡poema sem título!

[!sem título!]

É difícil esquecer o gosto e o cheiro de Vossa pele?
É difícil esquecer a textura e o sabor de Vossos lábios?
O que dizer de Vossos braços ao redor de meu pescoço?
O que dizer de Vossa voz melodiosa sussurrante a meus ouvidos?
Quando novamente...
Quando enfim outra vez...
Através de contato:
Vossa pele à minha tornando-se um só cheiro e gosto?
Vossos lábios aos meus tornando-se uma só textura e sabor?
Vossos braços ao redor de meu pescoço e meus braços ao redor de Vossa cintura?
Vossa voz melodiosa sussurrante a meus ouvidos?
Mesmo que as dúvidas mais pertinentes sejam
“Quando finalmente Vós despida diante meus olhos?”
E “então as pontas de meus dedos descendo de Vossas orelhas por Vosso tórax até
(Oh!, Mãe Gaea!)
os contornos de Vossas ancas e quadris?”
Suave e lírica sois a meus olhos...
Linearmente charmosa e interessante sois de meu agrado...
Agradavelmente e pertinentemente questionadora a mim insofismavelmente fascinante...
Sois a Fogueira que, então acesa, Não-Mais-Escuridão:
A-Fogueira-enquanto-Questionamento e Escuridão-enquanto-Desconhecimento
A Vontade e o Desejo em contraposto ao Medo e a Necedade.
Permita-me tocar-Vos enquanto Divindade e Totem e (então) simplesmente Humana
– mais que Humana, Divindade e Totem Mulher –
e entrar em combustão por estar Convosco e em Vossa presença
a ponto de não sobrar(mos) tampouco pó e cinzas;
Permita-me, Vós de olhos cerrados e deitada sobre meu corpo,
colocar Vossos cabelos atrás de Vossas orelhas
e ter Vossos lábios a contato direto e imaculado e tenro aos meus
e então voltarmos adormecer
somente ao som de nosso conjunto respirar.  

:: Introdução às Ciências da Religião, Prof.ª. Drª. Daniela Cordovil Vieira dos Santos ::
:: 27 de abril de 2017 ::

quarta-feira, 10 de maio de 2017

“Cada ser histórico transporta consigo uma grande parte da humanidade anterior à História. Esse é um fato que, sem dúvida, nunca foi esquecido nem mesmo nos tempos mais inclementes do positivismo: quem, melhor do que um positivista, sabia que o homem é um ‘animal’, definido e regido pelos mesmos instintos dos seus irmãos irracionais?”
– Mircea Eliade (1907-1986), “Simbolismo e Psicanálise”. IN: Imagens e Símbolos. Trad. Maria Adozinda Oliveira Soares.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

poemas escritos no mesmo dia para a mesma guria

[aula da manhã]

RITOS DE REPETIÇÃO (NECESSIDADE)

SABE o que eu preciso?
Preciso Vos ver acordando.
Sabe o que eu preciso?
Fazer-Vos suar como um porco-prestes-a-morrer
De tanto fuder
De tanto gozar.
Sabe o que necessito?
Vós sobre mim, Vossos pés sobre minhas coxas ou joelhos
Vossa barriga friccionando à minha
Avermelhando quase fogo.
Necessito veementemente:
Vosso emitir de sons ininteligíveis
Enquanto penetração e consequente orgasmo;
Vós de quatro em uma cama
Para eu me apoiar nos pés enquanto Vos penetro
E as mãos presas à Vossa cintura
“Até onde alcanço?”
“Será que chego/alcanço Vosso útero?”;
Simultaneamente/Inclusive
Amarrar Vossos cabelos com uma mão
Durante penetração
A fins de saber (até) onde Vosso pescoço verga
Facilitando/Dificultando
Vosso cantar de Renovar-(d)o-Mundo.
E, creio eu,
Vejo eu,
Que a Mulher e o Homem enquanto Um
São (como) um Ritual de Honra aos Deuses de Renascimento e Vida e Criação
Comunhão ao Universo e à Criação
Enquanto Si mesmos.
Sabe o que eu preciso?
Sabe o que necessito?
Dormir em Vossos braços eternamente
Tendo a insofismável certeza
De ter sempre de Vossos melhores beijos e sorrisos
Toda vez que acordar. 

:: Introdução às Ciências da Religião, Prof.ª. Dr.ª. Daniela Cordovil Silva Correa ::

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[aula da tarde]

A DISSIMETRIA QUALITATIVA

SEI que já falei em outro(s) poema(s)
Que desejo estar eternamente em Vossos braços
As mãos em Vossa bunda
Enquanto Vossas mãos e queixo em meus ombros
Enquanto chove.
Poderia ser, poderia ser
Durante chuva torrencial e frio de inverno Alemão
Ou Siberiano-Fronteiriço-à-China
Ou Groenlandês
No litoral Russo que seja possível ver o Japão.
Ou em uma praia, qualquer praia
Mas que não faça sol
Vossa pele reflete a luz do sol e/ou das estrelas
Quando estás despida?
Ah, vontade…
Vontade!
Vontade de sentir Vossa respiração antes de beijares testa e nariz
Sentir o apertar no corpo de Vossas unhas e Vossos dentes
Enquanto serdes por mim internamente aberta no momento de Vos penetrar.
Expirarás pela boca ou pelo nariz
(enquanto boca fechada)
Neste momento?
Em-Verde-Queimarás-meus-olhos?
(ou não).
Juntos partiremos este Mundo MundoS!
Seremos Terremotos e Maremotos e Furações e Infestações!
Através da destruição deste Mundo como hoje é conhecido
Reunificaremos o material com o espiritual!
E então, por fim, eu Vosso leito e repouso:
Vossos seios e barriga às minhas costas
Virilha e cintura e ancas aos meus quadris
Lábios e narinas à minha nuca e pescoço e ombros.
Inquestionavelmente com todo e existente grado atlasiano
Suportar-Vos-ei.
Com a Força e Vontade concedidas mediante orações e danças e cantorias e oferendas a todas às divindades totêmicas
Carregar-Vos-ei
E incessantemente
Amar-Vos-ei
Até não haver mais Mundo e Mundos
Até que não haja mais nada além de 
Amor. 

:: Linguagens da Religião, Prof.ª. Dr.ª. Maria Roseli Sousa Santos ::

“Nossas lâminas se encontraram com um estrondo que ecoou pela floresta, e quase o matei no primeiro golpe. Foi mais por sorte que ele deteve parcialmente minha estocada feroz, e a ponta de minha espada lhe atravessou toda a pele da mandíbula, de modo que o sangue lhe jorrou na parte da armadura que lhe protegia o pescoço. Ele gritou feito um cão louco, mas o ferimento lhe deu juízo e o fez perceber que não estava diante de uma brincadeira de criança.
Ele brandiu sua lâmina com toda a força e habilidade, e não o achei um espadachim médio. Bom para mim, que havia aprendido a arte pela melhor lâmina da França, pois este patife de barba negra era forte, habilidoso, e cheio de truques sujos e subterfúgios assassinos, através dos quais eu soube que ele não era um homem honesto, mas um sicário, um daqueles matadores pagos que vendem suas espadas a qualquer um que possa lhes pagar o salário.
Mas eu não era inocente naquele jogo, e minha rapidez de olhos, mãos e pés era tal, que nenhum homem poderia igualar. Falhando em todos os truques e estratégias, o barba-negra tentou me derrubar com pura força bruta, despejando golpes trovejantes sobre minha guarda com toda a sua força. Mas isto não lhe foi de melhor serventia, porque, apesar de eu ser mulher, meu corpo era como se fosse de molas de aço e ossos de baleia, e tinha a arte de desviar seus golpes antes que eles fossem bem começados e, deste modo, evitar sua fúria total. Dentro em pouco, sua respiração começou a assobiar através de seus dentes expostos, a espuma começou a se misturar com o sangue em sua barba, e sua barriga a ofegar sob sua couraça.”
– Robert Ervin Howard, “Espadas para a França”. IN: A Espadachim e outras Aventuras Históricas. Trad. Fernando Nesser de Aragão.
link pra download AQUI

sábado, 29 de abril de 2017

“Além disso, a serpente representa a função primária da vida, sobretudo comer. A vida consiste em comer outras criaturas. Você não pensa muito a respeito quando faz uma boa refeição, mas o que está fazendo é comer algo que há pouco estava vivo. E quando você olha para a bela natureza e vê os passarinhos saltitando daqui para ali... eles estão comendo coisas. Você vê as vacas pastando, elas estão comendo coisas. A serpente é um canal alimentar que se move, isso é tudo. Ela lhe dá aquela sensação primária de espanto, da vida em sua condição mais primitiva. Não há absolutamente o que discutir com esse animal. A vida vive de matar e comer a si mesma, rejeitando a morte e renascendo, como a lua.”
– Joseph Campbell para Bill Moyers, “A Jornada Interior”. IN: O Poder do Mito. Trad. Carlos Felipe Moisés.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

¡poema sem título!

[!sem título!]

É difícil esquecer o gosto e o cheiro de Vossa pele?
É difícil esquecer a textura e o sabor de Vossos lábios?
O que dizer de Vossos braços ao redor de meu pescoço?
O que dizer de Vossa voz melodiosa sussurrante a meus ouvidos?
Quando novamente...
Quando enfim outra vez...
Através de contato:
Vossa pele à minha tornando-se um só cheiro e gosto?
Vossos lábios aos meus tornando-se uma só textura e sabor?
Vossos braços ao redor de meu pescoço e meus braços ao redor de Vossa cintura?
Vossa voz melodiosa sussurrante a meus ouvidos?
Mesmo que as dúvidas mais pertinentes sejam
“Quando finalmente Vós despida diante meus olhos?”
E “então as pontas de meus dedos descendo de Vossas orelhas por Vosso tórax até
(Oh!, Mãe Gaea!)
os contornos de Vossas ancas e quadris?”
Suave e lírica sois a meus olhos...
Linearmente charmosa e interessante sois de meu agrado...
Agradavelmente e pertinentemente questionadora a mim insofismavelmente fascinante...
Sois a Fogueira que, então acesa, Não-Mais-Escuridão:
A-Fogueira-enquanto-Questionamento e Escuridão-enquanto-Desconhecimento
A Vontade e o Desejo em contraposto ao Medo e a Necedade.
Permita-me tocar-Vos enquanto Divindade e Totem e (então) simplesmente Humana
– mais que Humana, Divindade e Totem Mulher –
e entrar em combustão por estar Convosco e em Vossa presença
a ponto de não sobrar(mos) tampouco pó e cinzas;
Permita-me, Vós de olhos cerrados e deitada sobre meu corpo,
colocar Vossos cabelos atrás de Vossas orelhas
e ter Vossos lábios a contato direto e imaculado e tenro aos meus
e então voltarmos adormecer
somente ao som de nosso conjunto respirar.  

:: Introdução às Ciências da Religião, Prof.ª. Drª. Daniela Cordovil Vieira dos Santos ::
:: 27 de abril de 2017 ::

quarta-feira, 19 de abril de 2017

poema - TIARAS DE CONCHAS E FLORES E FOLHAS

TIARAS DE CONCHAS E FLORES E FOLHAS

TIARAS de conchas...
tiaras de flores...
tiaras de flores...
flores coloridas, flores de diversas cores:
flores mortas, folhas mortas
flores e folhas
e conchas
conchas que trazem o mar cantar em seu idioma
como o mar canta em seu próprio idioma
o quanto Vos quero
o quanto Vos almejo
desejo, desejos, desejo de Vós, desejo de Vós toda
mesmo apesar
apesar
de: indiscutível inegável inquestionável
indiscutivelmente
inegavelmente
inquestionavelmente
todas as Mulheres me interessarem
Umas mais... Umas menos...
Algumas é “é Mulher? ok, ótimo!”
Outras “uhum, aham, ok, ‘tá (eu passo)...”
pois a Mulher e o Ser Feminino
– a meu ver  e entender –
é o inexorável ápice e projeção do Belo artístico
enquanto conceito e ideal e estético
e interpretado como Perfeição e Harmonia perpetuamente irreprodutíveis em si mesmas.
tal qual Herr Professor [1] Campbell[2] observa e aponta
quanto Vos vi da primeira vez
meu coração disse-me ser Vós...
Vós enquanto meu outro eu...
assim como o supracitado teórico pontua sobre uma luz cintilar e algo no individuo lhe dizer quem é a pessoa certa
e... aconteceu...
eu vi esta luz a priori no verde de Vossos olhos
a completar em Vossos traços e contornos
e finar em Vosso sorriso e voz.
cantareis
de mãos às minhas
podereis cantar para mim
de nariz colado ao meu
e nós dois de testas coladas
e tiaras adornadas
quando enfim e finalmente
nossos espíritos e vontades e compromissos
tornarem-se Unos
transmutarem-se
alinharem-se
convergirem-se
em
Um
Só? 

[1] Do alemão “senhor professor”. Na língua alemã, todos os substantivos começam com letra maiúscula. Ademais, enquanto „Lehrer“ é o professor de ensino básico (feminino „Lehrerin“), „Professor“ já é o professor no ensino superior (feminino „Professorin“).
[2] Joseph John Campbell, (1904-1987), estadunidense mitólogo e estudioso de religião comparada.

:: 19 de abril de 2017 ::
:: Tópicos Temáticos I, Prof. Dr. Gustavo Soldati Reis ::

domingo, 16 de abril de 2017

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE – “A BOMBA”

“A bomba 
é uma flor de pânico apavorando os floricultores 
A bomba 
é o produto quintessente de um laboratório falido 
A bomba 
é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles 
A bomba 
é grotesca de tão metuenda e coça a perna 
A bomba 
dorme no domingo até que os morcegos esvoacem 
A bomba 
não tem preço não tem lugar não tem domicílio 
A bomba 
amanhã promete ser melhorzinha mas esquece 
A bomba 
não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está 
A bomba 
mente e sorri sem dente 
A bomba 
vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados 
A bomba 
é redonda que nem mesa redonda, e quadrada 
A bomba 
tem horas que sente falta de outra para cruzar 
A bomba 
multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação 
A bomba 
chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés 
A bomba 
faz week-end na Semana Santa 
A bomba 
tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia 
A bomba 
industrializou as térmites convertendo-as em balísticos 
interplanetários 
A bomba 
sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose, 
de verborréia 
A bomba 
não é séria, é conspicuamente tediosa 
A bomba 
envenena as crianças antes que comece a nascer 
A bomba 
continua a envenená-las no curso da vida 
A bomba 
respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais 
A bomba 
pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba 
A bomba 
é um cisco no olho da vida, e não sai 
A bomba 
é uma inflamação no ventre da primavera 

A bomba 
tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro, 
cobalto e ferro além da comparsaria 
A bomba 
tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc. 
A bomba 
não admite que ninguém acorde sem motivo grave 
A bomba 
quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos 
A bomba 
mata só de pensarem que vem aí para matar 
A bomba 
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe 
A bomba 
saboreia a morte com marshmallow 
A bomba 
arrota impostura e prosopéia política 
A bomba 
cria leopardos no quintal, eventualmente no living 
A bomba 
é podre 
A bomba 
gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado 
A bomba 
pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo 
A bomba 
declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade 
A bomba 
tem um clube fechadíssimo 
A bomba 
pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel 
A bomba 
é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris 
A bomba 
oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos 
de paz 
A bomba 
não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas 
A bomba 
desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger 
velhos e criancinhas 
A bomba 
não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer 
A bomba 
é câncer 
A bomba 
vai à Lua, assovia e volta 
A bomba 
reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação 
em cadeia 
A bomba 
está abusando da glória de ser bomba 
A bomba 
não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba 
o instante inefável 
A bomba 
fede 
A bomba 
é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina 
A bomba 
com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve 
A bomba 
não destruirá a vida 
O homem 
(tenho esperança) liquidará a bomba.”
– Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), “A Bomba”. IN: Lição de Coisas, 1962.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

“(...) ela [a Hermenêutica] possui um âmbito que alcança por princípio até o ponto em que se estende efetivamente o enunciado dotado de sentido. Enunciados dotados de sentido são inicialmente todas as declarações lingüísticas. Enquanto a arte de transmitir o que é dito em uma língua estrangeira para a compreensão de outra pessoa, não é sem razão que a hermenêutica recebe o seu nome de Hermes, o tradutor da mensagem divina para os homens. Se nos lembrarmos desse esclarecimento nominal do sentido de hermenêutica, ficará inequivocamente claro que se trata aqui de um acontecimento lingüístico, da tradução de uma língua em outra, ou seja, da relação entre duas línguas. No entanto, na medida em que só podemos transpor algo de uma língua para outra se compreendermos o sentido do que foi dito e se conseguimos reconstruí-o em meio à outra língua, um tal acontecimento lingüístico pressupõe o compreender.”
– Hans-Georg Gadamer, “Estética e Hermenêutica”. Trad. Marco Antonio Casanova.

poema sem título

[!sem título!]

EU tenho um lençol azul de rede
Que uso pra me embrulhar.
Como ultimamente faz frio pra porra de manhã cedo
Quando durmo, é enrolado com ele
E quase não levanto no dia seguinte
Isso porque não tem ar-condicionado no meu quarto
Imagina se tivesse...
Se me perguntares ou perguntasses como eu queria acordar hoje:
Ah!, queria eu... e Ah!, quem me dera...
Se fosses colchão e lençol onde eu pudesse não somente
Ter o melhor dos dormires e inclusive também
o melhor acordar...
Ah!, queria eu... e Ah!, quem me dera...
Vós do lado, ao redor, acima e abaixo
O nívea-pele refletindo às paredes do quarto a pouca luz do sol que adentra pelas fretas da janela
E então Vós vos incrustando ainda mais a meu corpo
Tal qual um brasão de armas em um escudo ou cabo de gladio e/ou espada e/ou maça.
Como, Vós, ser refletor
Como, Vós, colchão e lençol
apareceste a minha vida e então 
Vós, de divinos e formosos traços e delíneos...
Vós, de doces e cândidos olhos claros
estes ora silenciosos (mudos?)
ora gritantes no momento de gozar
que nenhum dos Nove Mundos consegue mais dormir depois...
Vós, toda e Toda em Vossos infinitos e ímpares
Completude e Graciosidade e Infinitude
em Vós
perco-me alegremente sem olhar para trás
rumo aos inescrutáveis e imensuráveis 
Sentido-da-Vida e Existência-em-Si-Mesma
que são e estão Vosso Corpo e enfim neste 
Vosso Bem-Querer!
Então neste Período conhecido como “Agora”
repousado em Vós
embrulhado em Vós
tal qual um Lobo no silencioso caçar
subirei de Vossas pernas a Vossos quadris e barriga
trilharei por Vosso tórax e abdome
rastrearei por Vosso colo e Vosso braço e ombros
até finalmente situar bandeira em Vosso queixo e lábio e nariz
para ouvir-Vos sussurrar, de olhos semicerrados, meu nome

e então sermos
novamente
e mais uma vez

Um. 

:: 07 e 11 de abril de 2017 ::
“Parece pertencer muito mais à experiência da arte o fato de a obra de arte possuir sempre o seu próprio presente, de ela só reter em si de maneira muito condicionada a sua origem histórica e de ser em particular expressão de uma verdade que não coincide absolutamente com aquilo o seu autor intelectual propriamente imaginou aí. Quer denominemos agora esse fato a criação inconsciente do gênio ou consideremos a partir do observador a inesgotabilidade conceitual de cada enunciado artístico – em todos os casos, a consciência estética pode se reportar ao fato da obra de arte comunicar a si mesma.”
– Hans-Georg Gadamer, “Estética e Hermenêutica”. Trad. Marco Antonio Casanova.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

poema para Camila Fernanda Ferreira Costa

[!sem título!]

AGORA é “amigos, amigos, cada um pro seu lado”...
Agora é “amigos, amigos, eu aqui e tu ai”
É sempre uma lástima...
É sempre uma tristeza...
É sempre frustrante...
Mas a vida tem disso, infelizmente a vida tem disso...
Nos demos as mãos – para a chuva ser menos fria.
Nos demos as mãos: para que as enchentes não cobrissem nossas cabeças.
Nos demos as mãos, para que não afundássemos em lama.

Agora soltamos as mãos:
não estamos à deriva mas tudo se esvai... 
se esvaindo e se tornando história...
esvaindo e se tornando lembrança...
Tudo se esvai e se desfaz: em Lembrança
Tudo se esvai e se desfaz: em Memória
Tudo se esvai e se desfaz: em Poesia.

tudo se esvai e se desfaz e se vai

a vida sopra sempre pra frente e nos soprou para longe um do outro.
que todo o Amor e toda a Boa-Vontade e Bem-Querer deste mundo
sempre estejam contigo.
um dia eu não mais lamentarei nos termos nos soprado para longe
(muito a dizer, sempre muito a dizer)

um dia não mais lamentaremos termos soltado as mãos

hoje é este dia?

hoje só faz frio e não quero levantar da cama...
pensar nisso deixa o dia bem mais frio

bem mais frio. 

:: 04 de abril de 2017 ::

quarta-feira, 5 de abril de 2017

poema sem título de 05 de abril de 2017

[!sem título!]

NÃO me leve a mal, deixa eu te levar pra minha cama...!
Não me tire dúvidas, deixa eu tirar as suas roupas!
Hoje amanheceu nublado, ainda está nublado –
Não consegui mais dormir, não ‘tô acostumado a frio assim.
Eu quero um aquecedor pessoal do tamanho do seu corpo!
Com penas como as suas
E braços como os seus.
Duvido sentir frio com sua buceta e peitos ao alcance de minhas mãos e minha boca.
Como sentir frio com sua buceta e peitos ao alcance das mãos e da boca
ainda mais da Mulher que se deseja
como eu te desejo?
Mesmo que não seja reciproco, ah, deixa, eu te entendo:
Masturbação sempre esteve aí e vai perdurar até muito depois de nós.
O tempo vai passar, nós vamos passar...
Eu quero me aquecer abraçado no seu corpo...
Eu quero me aquecer passando a língua em todo o seu corpo!
Não quero café na cama, quero ser acordado com um boquete
e logo depois
“Vamos dar uma rapidinha antes de eu sair pra trabalhar!”.
Pode soar machista, rude, agressivo e mesmo sexista
Mas almejo sentires minha língua pelo lado de dentro da garganta
tendo como portal sua vagina.
Não faça essa cara de moça recatada lendo sem graça
Tu não me enganas não:
Queres e gostas mesmo de estar avermelhada
Tendo uma morte em vida:
A Melhor Morte: desfazer-se em Suor de Tanto Gozar!
Não me dê soluções, me dê a oportunidade de te comer como tu mereces e precisas sê-lo.
Não me traga esperança, me traga seu corpo com roupas fáceis de tirar.
Uma das certezas insofismáveis do universo
É que não sou um desses machos tristes que pagam de fodões
Mas não passam de vermes arrotando valentia que se cagam todos
Ao encontrar Mulheres maiores e melhores que eles
Como inquestionavelmente és perante a mim.
Então este sou eu: pronto e disposto a ser sacrificado em Seu Nome, Honra, Glória e Devoção!
Não me mostre estimativas e expectativas, me mostre o corpo irrequietamente escondido sobre estes tão finos trajes.
Não me apresente novas perspectivas e autores, me apresente como realmente és, sem batom e maquiagem e quinquilharias e penduricalhos.
Venha me aquecer, enfim deixar eu te conhecer...
Unamo-nos e sejamos tanto um micro-ondas quanto uma pira cerimonial
e nunca mais sentir frio. 

:: 04 de abril de 2017 ::

terça-feira, 4 de abril de 2017

“Não se troca de moradia facilmente, pois não é fácil abandonar nosso próprio mundo. A casa não é um objeto, "uma máquina dentro da qual se vive"; é o universo que o homem constrói para si mesmo, imitando a criação paradigmática dos deuses, a cosmogonia. O ato de construir e o de instalar numa nova moradia são, de certa forma equivalentes a um novo começo, uma nova vida. E cada começo repete o começo primordial, quando o universo viu a luz pela primeira vez. Mesmo as sociedades modernas, com o seu alto grau de dessacralização, as festividades e o júbilo que acompanham o ato de estabelecer-se numa casa nova, ainda preservam a lembrança da exuberância festiva que, há muito tempo, marcava o incipit vita nova.”
- Mircea Eliade (1907-1988), “A casa como centro do mundo”. IN: Ocultismo, bruxaria e correntes culturais - ensios entre religiões comparadas. Trad. Noeme da Piedade Lima Kingl. Belo Horizonte: Interlivros, 1979.

quarta-feira, 29 de março de 2017

“Take your men now and ride down that ridge and strike them hard, or their left flank! Don’t ask – I know it’s mad but we’re finished anyway. Now go dammit and peace be in your black soul.”
Conan, the Barbarian.
[!sem título!]

BASICAMENTE, Vos quero e desejo nua em minha cama
Mesmo que seja ou de bruços ou dormindo ou pronta para fazer-se Un.
Almejo subir de Vossos anelas a Vossos cotovelos e então voltar com meus indicadores
simultaneamente
A correr com o nariz e boca Vossos ombros às orelhas
E então desbravar Vossa barriga e tórax com as pontas dos dedos e logo descer de Vossa boca à virilha à parte interna desatas e das coxas
e então voltar.
Em suma, estás muitíssimo agradável a meus olhos.
Como Vos disse:
Encontra-Vos de acordo e molde de Mulher que aprecio e insofismavelmente prefiro em meus braços e beijos e beijos e cama para dormir junto abraçado.
E então idealizar-Vos e querer-Vos vestindo somente óculos
(e saltos inclusive? e saltos muitíssimo possivelmente também).
Somados todos estes fatores apresentados
[todavia não devidamente teoricamente situados]:
Como não querer-Vos e me proibir de desejar-Vos comigo – ter Vosso corpo como ar e alimento e objeto mundano então sacralizado através de hierofania (teofania) –
e então
enfim
FINALMENTE
alcançar a Experiência do Transcendente ao ter-Vos em contato e alcance, uma vez que sois, enquanto Sacralizada, relacionada em Si ao universal e ao Todo e então somente Vós?
Como não objetivar devorar-Vos [canibalizar-Vos?] carnalmente, intelectualmente, espiritualmente e sagradamente do corpo para enfim e cérebro e banhar-me e embeber de Vosso sangue e suor
através de somente um processo e uma única metodologia
a fins de alcançar obter e possuir a anteriori Vosso Interior e Aura e a posteriori Vosso Poder divino/sacro configurado em Conhecimento?
Logo e por fim, Vós encarnada Musa de indubitável sacro:
Sois Vós que quero e desejo e almejo
Mesmo que seja ou de bruços ou pronta a ser Una (ao devoto). 

:: 28 e 29 de março de 2017 ::
:: Tópicos Temáticos I, Prof. Dr. Etienne Alfred Higuet e Prof. Dr. Gustavo Soldati Reis ::

terça-feira, 28 de março de 2017

“Cada descoberta de um fato histórico conhecido, e toda nova interpretação de um já conhecido, ou se ‘encaixará’ na concepção geral predominante, enriquecendo-a e corroborando-a por esse meio, ou então acarretará uma sutil ou até uma fundamental mudança na concepção geral predominante, lançando assim novas luzes sobre o que era conhecido antes. Em ambos os casos, o ‘sistema que faz sentido’ opera como um organismo coerente, porém elástico, comparável a um animal vivo quando contraposto a seus membros individuais; e o que é verdade nas relações entre monumentos, documentos e um conceito histórico geral nas humanidades, é igualmente verdadeiro nas relações entre fenômenos, instrumentos e teoria nas ciências naturais.”
– Erwin Panofsky, “Introdução: A História da Arte como uma Disciplina Humanística”. IN: Significado nas Artes Visuais. Trad. Maria Clara F. Knesse e Jacó Ginsburg, com revisão de Mary Amazonas Leite de Barros. São Paulo: Perspectiva, 2014.