quinta-feira, 23 de julho de 2009

LOBO SOLITÁRIO: o Mangá [parte um de três]

Trilha sonora de fundo: Diorama, Silverchair, 2002
(deveras contrastante, não?)


LOBO SOLITÁRIO:
O Mangá


Segundo o escrito Kazuo Koike, a inspiração para criar Lobo Solitário surgiu quando ele leu que o clã Ogami, que detinha o posto de Kogi Kaishakunin (oficial da morte, executor) que caiu em desgraça em 1655, com a família Yagyu (tradicional aliada do Xogunato Tokugawa) assumindo para si o posto.
Baseado nisso, o autor criou a história dos últimos sobreviventes da família Ogami, pai e filho – vítimas de uma conspiração dos Yagyu, que decidiram tomar para si o posto de executores oficiais – e decididos a se vingar superando os Yagyu naquilo o que o clã fazia de melhor: assassinatos! Como principal vilão, uma figura histórica menor, Retsudo Yagyu, um dos membros conhecidos da famosa família de samurais (historicamente, um simples monge budista).
Para fazer a arte da série, Koike chamou Goseki Kojima, que até então era um autor relativamente novato e desconhecido que já trabalhara com Koike em um bem-sucedido mangá de samurai, Kubriki Asa (Decapitador Asa), e tinha demonstrado talento para este gênero.
Assim, em setembro de 1970 a antologia de mangá semanal japonesa Action começou a publicar um novo mangá de samurai chamado Kozure Ookami (numa tradução literal, “o lobo acompanhado de seu filhote”), em substituição a Kubriki Asa.
Os dois trabalhos eram, porém, bem diferentes em seu conteúdo. O herói de “Asa”, Asaemon, era um fiel servidor do Xogum e irrepreensível seguidor do código de honra samurai (o Bushido), um verdadeiro modelo de “herói clássico” japonês, apesar da sua profissão de carrasco. Enquanto isso, o principal protagonista de Lobo Solitário à primeira vista só poderia ser classificado como um assassino frio e impiedoso, capaz de fazer qualquer coisa (honrada ou não) para conseguir seu objetivo, embora fosse dono de uma nobreza interior claramente visível para aqueles que acompanhassem o desenrolar de suas histórias. Ironicamente, o personagem era, antes dos acontecimentos que o levaram a seguir a trilha do assassino, um nobre e fiel executor a serviço do Xogum, tal como seu predecessor nas HQs.
Mas importante, ao contrário de “Asa” (e da inconsistente tradução de seu título para português), o “Lobo Solitário” não era solitário, ele tinha um importante co-protagonista, Daigoro, seu filho. Não apenas uma testemunha muda dos crimes de seu pai, Daigoro era cúmplice e ajudante deste. A inspirada inclusão de crianças no mangá fez deste um mangá verdadeiramente revolucionário. A dualidade do personagem, ora uma criança inocente em um mundo violento, ora um assassino calejado (verdadeiro “lobo em pele de cordeiro”, por assim dizer), deu a Lobo Solitário uma sofisticação que os trabalhos anteriores de seus criadores não poderiam igualar e é uma das principais raízes do sucesso da obra tanto no Japão quanto no ocidente.
A outra é, sem dúvida, a impecável arte de Kojima. Embora na altura ainda fosse um artista novo (seu primeiro trabalho foi publicado em 1967!), ele revela uma surpreendente maioridade artística no mangá. Seu realismo e atenção a detalhes já eram visíveis em suas obras anteriores, mas em Lobo Solitário ele foi, tal qual uma boa espada samurai, forjado até a perfeição. Além disso, ele demonstrou uma narrativa impecável – quase cinematográfica. Vale a pena destaca que, quando de sua primeira publicação foi publicada nos EUA décadas depois, seus desenhos inspiraram toda uma geração de artistas ocidentais.
A sombra que esta obra lançou sobre os trabalhos anteriores de seus criadores é bastante visível quando Asaemon acaba como coadjuvante de Lobo Solitário (em uma história a ser publicada futuramente pela Panini, mas que os leitores das edições da Sampa* já tiveram o privilégio de ler). Fica claro nesse ponto que os criadores estavam rompendo com o passado e fazendo de Lobo Solitário sua mais importante criação.
E não foi à toa. A obra fez um tremendo sucesso quando de sua publicação original. Gerou até uma série de filmes para o cinema enquanto o mangá ainda estava sendo publicado! Feito ainda mais surpreendente se levarmos em conta que era uma obra voltada para o público adulto.
E quanto maior o sucesso, mais a trama se alongava, para a alegria dos leitores da Action, que acompanhavam fascinados as peripécias dos personagens a cada edição durante os sete anos de publicação da série (ela foi concluída em 1976). No final, a história se estendeu por cerca de 8400 páginas (número deveras impressionante, comparável ao total de páginas do mangá que é considerado o maior sucesso comercial da história dos quadrinhos: Dragonball), contando (diferente de muitos mangás) com um bem-estruturado desenvolvimento até chegar a um clímax e desfecho irrepreensíveis.
Claramente, a série foi encerrada não só por falta de vendas (eterna inimiga das HQs mais sofisticadas) ou por cansaço dos autores (causa da morte da grande maioria dos mangás de sucesso), mas por escolha dos próprios autores. Mas o que levou Koike e Kojima a matarem sua “galinha dos olhos de ouro”?
O próprio Koike deu a resposta em uma entrevista para uma publicação especializada norte-americana anos atrás. Segundo eles, mostrar a passagem das estações do ano no mangá, acompanhando a passagem destas durante a publicação original da obra, era algo que ele não só gostava de fazer, como achava essencial para o clima da história (e com razão, como os leitores poderão constatar durante a sua publicação). Após alguns anos, porém Koike percebeu que o passar das estações iria necessariamente resultar no envelhecimento de Daigoro. Koike não queria que ele envelhecesse e perdesse sua pureza infantil, e resolveu deixar de mostrar a passagem das estações. Isso fez com que o escritor gradualmente fosse perdendo o interesse em continuar a série e decidisse por encerrá-la após criar um longo arco onde fechou todas as tramas em aberto.
Isso fez de Lobo Solitário uma obra completa, com começo, meio e fim, que se tornou um dos grandes nomes épicos da HQ mundial.

Pedro “Hunter” Bouça

Fonte: Lobo Solitário, volume 1: O Caminho do Assassino, Panini Brasil, dezembro de 2004, páginas 300 e 301

* tal como tantos e tantos outros pelo país, eu também comecei a ler Lobo...nas edições da Sampa!





Edjan, Elias, Lucas, e todos os fãs de Lobo Solitário espalhados pelo país, novatos e veteranos – essa postagem é pra todos nós!


FELIZ ANIVESÁRIO! pro meu amigão do coração, ERIC COELHO PEREIRA (ver Novembro Cinza, Hoje Tem Pavulagem?!? e Poemas Para Renata, Chuva-Vermelha-de-Sangue e Pequeno Poema Para Meus Amigos) – felicidades e vitórias procê, bicho, porque você merece!

4 comentários:

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