sábado, 6 de setembro de 2014

ÓCULOS E BATOM VERMELHO

ÓCULOS E BATOM VERMELHO


ELE DORMIU MAS NÃO MUITO, NÃO O TANTO QUE DEVERIA, NÃO COMO ELA. Não acreditava, parecia um sonho de adolescente – todavia um realizado. O corpo dela colado ao dele, a cabeça usando um braço como travesseiro e a outra mão sobre a barriga, segurando a mão dele, não prendendo todos os dedos mas garantindo que ele estivesse lá quando ela acordasse. O contraste de peles não era visível devido à sombra constante dentro da barraca, e o sol ainda não havia encontrado o lugar, ainda protegido pela sombra do prédio de salas. Ainda não calor, o suor já seco. Na cabeça dele, não parecia real que estivessem lá, ele costumava ficar perdidamente encantado com mulheres como aquela, mas não enfim estar com elas como estivera desde... Não lembra desde que horas estava lá, mas que a lua ainda em riste. Temia pensar em voz alta para não acordá-la. Não, queria acordá-la para transar mais. Na verdade, não sabia o que queria de fato além de não querer que aquele momento não acabasse tão cedo. O nariz colado às costas dela, a barba negra roçando à pele branca, ela estava sorrindo de boca aberta, a pele não mais vermelha nem rosada. As formas dela maiores que as dele, altura inclusa, e isso muito o agradava, tanto que o conjunto da moça fora o que fizera seus olhos brilharem. Isso foi no dia anterior. “Anterior?”, ele pensou. Em um encontro de estudantes, não existe uma noção de tempo muito definida. Fechou os olhos.
“EI, GAROU! EI, GAROU! EI, GAROU!”, ele abriu um olho. Gritos. Estavam longe. Na próxima não tão longe. Cada vez mais perto. Fechou os olhos, desejando que sumissem, que não fosse com ele. Mais perto. Por um momento, pensou de quem era aquela barraca, ela o puxara pela mão, o empurrou para dentro. No momento seguinte, o escuro e ela por cima dele – sem óculos. O primeiro beijo.
“MALAFAIAAAAAAAAAAAAAAAAAA!”
Estava bem perto, quase do lado. Ela puxou os braços dele para mais perto, praticamente em seus seios. Quadris encaixados. Olhos fechados e rosto incrustrado às costas dela. Ela movia a cabeça, suspirava morno, mas lhe era muito agradável.
“MALAFAIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!”
Abriu os dois olhos de uma vez. Estavam do lado deles. Prendeu a respiração. Sentiu ela se mover com o segundo grito, e se mover forte. “Que porra é essa?”, se perguntou em voz alta. Virou-se para ele. Eles se perguntavam onde ele estava, que respirou fundo. Ele a beijou antes de vestir a bermuda e sair. “Onde porra...?”, ela perguntou.
Os rostos deles brilharam como sóis morrendo. “CARALHO, TU ESTAVAS ONDE, PORRA?!? TU TENS QUE VER ISSO!!!”, gritavam e o puxavam pelo braço. Ele pediu para esperar, foi até ela que estava sentada no colchão de ar, nua, puta da vida, cabelos atrás das orelhas, deitou-se novamen-te. Então a beijou, dizendo que voltaria logo, ela segurou o rosto dele com as duas mãos, prolongando o beijo de batom vermelho, ele fechou a barraca para transarem novamente antes de sair outra vez. Eles não se aguentavam os esperando terminar, cada um com um cigarro na mão. O sol já começava a incomodar. A universidade estava começando a ficar movimentada devido ao café da manhã. “‘BORA, PORRA!”, Valmir e Anderson gritaram, balançando a barraca. 
“Malafaia”, Rodolfo disse, “tem um REX perto do R.U. !”
O mundo parou pro barbudo.
“Um REX?!?”, ele disse de dentro da barraca, ela não entendeu. Os rapazes e as moças sorriram uns para os outros. Ele sorriu para a moça, e terminaram o que estavam fazendo. Se beijaram muito antes de ele dizer “já venho” e se vestir para sair. 
“Um REX?!?”, ele perguntou. Talita e Camila sorriram. “Um REX”, Rodolfo respondeu, os olhos brilhavam. “Onde?” – a pergunta. “Vamos lá”.

SIM, ERA UM REX. Meio submerso, não podiam medir o quão estava destruído, mas sim. Era um Metal Gear REX e estavam admirados do porque os militares ainda não estarem lá. Todos seriam presos e levados para só-os-Deuses-sabem-onde, fichados e presos por tempo indetermina-do. Dos videogames direto para os seus olhos e no último lugar pensado. Ele mordeu os lábios antes de olhar para Rodolfo, os dois sorriram. O clássico cumprimento de socos entre garotos. Suspirou. Olhou para Talita, Camila, Matheus, Valmir, Anderson, Thaynara e Lucas. Um mais profundo. “Foda-se”, pensou. “Manda todo mundo sair daqui”, ele disse.
“Daqui de onde?”, Matheus perguntou. 
“Daqui da UECE ”, ele disse, “os militares vão estar aqui a qualquer momento e vão levar todo mundo daqui”.
“Militares?”, Talita perguntou. Ele abraçou as meninas antes de entrar na água, para surpresa de todos. “Mas que porra...?”, se perguntaram. Nadava bem, chegaria mais rápido se não fumasse e não bebesse tanto nos últimos dias. Eles se perguntaram que diabos ele faria lá. Não teve tantas dificuldades para subir devido o tanto de brechas e cavidades que facilitaram o processo. O cockpit era liso e não tinha muitas superfícies de apoio, mas enfim chegara e... Os pelos dos braços ficaram eriçados, olhou para o horizonte.
Helicópteros de hélices duplas vindo em sua direção. Nas estradas, caminhões e jipes.
Pensou em seus irmãos e em suas irmãs. E em Kathaerine.


“Não...”




:: sobre o XXXIII Encontro Nacional de Estudantes de História, Fortaleza – Ceará, 16 a 23 de agosto de 2014 ::
:: o projeto do conto foi escrito no evento, o dito foi produzido em 02, 03 e 04 de setembro de 2014 ::
:: para Caroline Cardoso Silva, Camila Valvassori e Matheus, Talita Ricieiri, Rodolfo Green, Valmir Júnior, Anderson Matos, Priscilla Thaynara Silva e Lucas Moreira ::

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