segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

conto sem título

[¡sem título!]

Porra, André – ela de óculos escuros estilo Lennon, maiô, bermuda e sandálias; o coldre na perna, por uma abertura na bermuda que facilitaria o saque –, quem dera se toda missão fosse assim: ir atrás do bloco, chuva, marchinha, beber tudo sem ficar bêbado... 
Porra, Kat – Cahlkias de sandálias e bermudas, camisa na cintura –, eu também curto muito tudo isso, o foda é ter que ficar reparando aquele bando de jumento da universidade. 
E tudo pago pelo governo, olha – Jainchill observou. – Não que eu aprove esse gasto. E acho que cê também não, caloura.
A “caloura” era Kathaerine Pelegrina Melo, récem-recrutada pela ABIN como infiltrada no Movimento Estudantil da Universidade Federal de Pelotas, e um ano e meio mais nova do que Jainchil e três do que Calkhias. Era sua primeira missão de observação fora da universidade e arredores, sendo coordenada pelo londrinense e avaliada pela fluminense. André Magalhães e Jussara Grassetti compunham o resto da equipe, o primeiro monitorando o que Melo pegava com as câmeras em seus óculos (a altura dela ajudava pela visão mais completa do local) e a segunda monitorando a posição em campo do trio, que estava de olho nos “alvos”, mas a distância que pudessem ver e não ser vistos. Antes de sair, tomaram remédios especiais para não se embriagarem, independente do quanto bebessem, ou até mesmo se utilizassem outros tipos de drogas. Armas carregadas e posicionadas, identificação via satélite ok, identificação colada ao corpo caso fossem parados pela polícia ou afins ok, se misturaram com o povão.

Sim, porque eu iria trabalhar pra vocês? – incisiva.
Eu poderia te dizer que vamos te pagar muito bem...
Eu estudei sobre a ditadura e...
Não estamos mais na ditadura e o buraco é muito mais embaixo atualmente.
Multipolaridade mundial pós-Guerra Fria?
Eu disse que ela era uma boa escolha – Wackwitz abriu os braços para cima.
Fora que você viu o que viu em Fortaleza ...
O tal REX?
O tal REX.
E o que vocês fizeram com o......?
O apagamos do sistema e proibimos de repetirem o nome dele em voz alta por ai.
Não, ele não está morto. Só o trancamos e jogamos todas as chaves fora.
[silêncio]
Mas isso não responde minha pergunta: “porque eu?” E também minha outra pergunta “porque eu trabalharia pra vocês?”
Porque, se você não trabalhar pra gente e com a gente, vamos te apagar que nem apagamos aquele paraense doente mental filho da puta. Porra. Não podemos ter essa conversa e te deixar passeando por ai como se nada tivesse acontecido. Porra.
Ah...

Desespero total entre a multidão. “Não os percam de vista”, Magalhães gritou. Melo pensou em tirar a arma, mas, além de não achar prudente, lembrou-se “de só tirar a arma em último caso que não houvesse mais solução”. Já sabia o procedimento, separar-se e encontrar. A perua havia explodido no momento em que os alvos haviam se encontrado, impedindo que Magalhães e Grassetti fechassem a posição do negociador e rastreassem seu rosto no banco de dados. “Liguem os RE²Mics internos”, Grassetti ordenou, Melo odiava tais maquinários. Ela odiava o trabalho todo em si, se sentia uma traidora mentirosa imunda – que ganhava mais do que ganharia como professora de História ou historiadora ou mesmo designer – para entregar os amigos, tanto que usava o dinheiro somente para o estritamente necessário e dava o resto para os pais e instituições de caridade apoiadas pelo coletivo feminista que era integrante (e acabou conhecendo as lá infiltradas). O treinamento foi uma verdadeira barra e mais ainda por ainda ter que manter o peso de antes da convocação, para não levantar suspeitas, apesar de ter gostado de agora saber utilizar várias armas e técnicas de combate corpo-a-corpo que acreditava não poder fazer devido ao biótipo. Quase não completou os módulos de montagem e manutenção geral, infiltração, intimidação e tortura (por motivos óbvios), entretanto foi aluna exemplar em identificação, tiro, improvisação e adaptação, planejamento e combate corpo-a-corpo. Neste momento, corria atrás de atravessador um de drogas experimentais para a sua universidade e seu respectivo fornecedor. “Já fiz uma varredura por satélite”, Grassetti gritou, “não foi tiro de bazuca que atingiu a kombi, ela explodiu sozinha. Se concentrem no careca, deixem que os tubarões resolvam isso”.

Desde Fortaleza... – ela sussurrou. – Vocês ‘tão me monitorando desde Fortaleza...
Pra falar a verdade, foi a Jainchill e a Sagnol que deram a sugestão quando te viram lá.
Sagnol?
Ana Talita Sagnol. Se formou recentemente no mesmo curso que tu na Universidade de Londrina, mas agora é agente de campo mesmo. “Menos trabalho do que infiltrada”, foi o que ela disse.
Quantos... Infiltrados...?
Mais do que você pode imaginar. Competimos pau a pau com os militares, mesmo trabalhando com eles.
Têm militares infiltrados no Movimento Estudantil?!?!?
Você ia meter uma bala na cabeça agora mesmo se soubesse onde tem gente... Sorte a nossa que você não tem arma pra fazer nem autorização pra saber.

“Sara, fecha no meu sinal”, Lenina sussurrou, “‘tô do lado dele”. “Cahl, Kat, vão!”, Magalhães gritou após a morena de olhos bem negros informar a posição a eles e transmitir para seus celulares. O londrinense levantou o braço e fez um sinal com a mão, a pelotense viu e obedeceu – cada um chegar por um lado do alvo para fechá-lo. A caloura perguntou se Jainchill havia achado o atravessador ou o fornecedor. “O segundo”, a acreana respondeu, “o que vocês estavam esperando para encontrar”. Carros de polícia e televisão por todos os lados. Visualizou o local de encontro, um restaurante. Entrou. Após uma olhada rápida, viu a carioca, que fez sinal com a boca “é ele”, mas não pôde ser visto devido às pessoas à sua frente. O londrinense se aproximava pelo outro lado. “Caloura”, Magalhães, “fecha o foco nesse animal pra eu fixar a imagem e procurar no banco de dados”. O sangue subiu todo à cabeça dela quando o fez. Ferveu como uma caldeira já em ponto de derreter metal instantaneamente.
“Seu filho de uma puta”, ela rangeu os dentes. Ele olhou para ela. O resto de sua equipe não entendeu. “Eu prometi que ia te achar até no inferno”. O sergipano anunciou ter encontrado a ficha do procurado, Lenina pediu um tempo para saber o que a caloura faria. “Puta merda”, Aluizio Fernandes Rochedo se lembrou dela, “não você”. Antes que a analista de campo infiltrada no Movimento Estudantil da Universidade Federal do Rio de Janeiro pudesse pensar em algo, ele saiu rapidamente pelo outro lado, até mesmo fora do alcance de Cahlkias. “Kat, mas que porra...?”, Jussara.
Ele estuprou a minha irmã!
“VAI!”, Grassetti e Jainchill soltaram a corrente do lobo.



:: 17 a 19 de fevereiro de 2015 ::

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