quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Sobre os bombardeios anglo-estadunidenses às cidades alemãs durante a II Guerra Mundial - parte 2

“O zoológico – ele deveria ter constituído uma das partes principais na apresentação dos muitos momentos, horas e anos de horror. Nunca, porém, diz [Hans Dieter] Schafer, consegui ao escrever evocar ‘os acontecimentos terríveis em toda a sua violência’. ‘Quanto mais decidida a minha busca [...], mais eu tenho que entender a dificuldade com que a memória avança’: No que diz respeito ao zoológico, um volume de materiais organizado por Schafer sobre Berlin im Zweiten Weltkrieg [Berlim na Segunda Guerra Mundial] dá uma ideia do que lhe pode ter passado pela cabeça. O capítulo ‘Bombardeios de saturação entre os dias 22 e 26 de novembro de 1943’ contém passagens de dois livros (Katharina Heinroth, Mit Faltem begann’s - Mein Leben mit Tieren in Breslau, München und Berlin [Começou com as borboletas - minha vida com animais em Breslau, Munique e Berlim], Munique, 1979, e Lutz Heck,Tiere - Mein Abenteuer. Erlebnisse in Wildnis und Zoo [Animais - Minha aventura: experiências na selva e no zoológico], Viena, 1952), nos quais se obtém uma imagem da devastação do jardim zoológico por esses ataques. Bombas incendiárias e botijões de fósforo puseram fogo em quinze construções do zoológico. A casa dos antílopes e das feras, o prédio da administração e o casarão do diretor foram completamente incendiados, a casa dos macacos, o prédio de quarentena, o restaurante principal e o templo hindu dos elefantes, seriamente danificados ou destruídos. Um terço dos 2 mil animais que ainda restavam depois da evacuação morreu. Veados e macacos se soltaram, pássaros escaparam pelos tetos de vidro quebrados, ‘surgiram boatos’, escreve Heinroth, ‘de que leões dispararam em fuga até as proximidades da Igreja Memorial do Imperador Guilherme; enquanto, na verdade, eles jaziam, asfixiados e carbonizados, dentro de suas jaulas’. Nos dias seguintes, uma mina aérea arrasa o precioso edifício de três andares do aquário e o pavilhão de trinta metros de comprimento dos crocodilos, juntamente com a paisagem artificial de mata virgem. Agora encontravam-se lá, escreve Heck, entre blocos de cimento, terra, cacos de vidro, palmeiras e troncos de árvore derrubados, lagartos gigantes se contorcendo de dor na água rasa ou caindo pela escada de visitantes; enquanto, no fundo, pela abertura de uma porta escancarada pela explosão, penetrava o clarão vermelho do fogo de Berlim que sucumbia. Também foram horrendos os trabalhos de desobstrução. Os elefantes que morreram em seus estábulos tiveram que ser despedaçados ali mesmo nos dias seguintes, sendo que, como conta Heck, homens se arrastavam dentro das caixas torácicas dos paquidermes e revolviam montanhas de tripas. Essas imagens de horror nos deixam especialmente estarrecidos porque rompem os relatos do sofrimento vivido pelos seres humanos, em certa medida pré-censurados e estereotipados. E pode ser que o terror que nos assoma ao lermos passagens como essas também decorra da lembrança de que o zoológico, que surgiu em toda a Europa graças à necessidade de demonstração do poder principesco e imperial, ao mesmo tempo pretendia ser a reprodução do jardim do paraíso. Constata-se sobretudo que as descrições da destruição do zoológico de Berlim, que de fato sobrecarregam o sensório do leitor médio, só não provocaram nenhum escândalo porque provêm da pena de especialistas, que, como se pode verificar, nem mesmo nas circunstâncias mais extremas perdem a razão, sequer o apetite, pois, relata Heck, ‘os rabos de crocodilo, cozidos em grandes recipientes, tinham o gosto de carne de galinha gordurosa’, e mais tarde, prossegue ele, ‘o presunto e a linguiça de urso foram para nós uma iguaria’”.“O zoológico – ele deveria ter constituído uma das partes principais na apresentação dos muitos momentos, horas e anos de horror. Nunca, porém, diz [Hans Dieter] Schafer, consegui ao escrever evocar ‘os acontecimentos terríveis em toda a sua violência’. ‘Quanto mais decidida a minha busca [...], mais eu tenho que entender a dificuldade com que a memória avança’: No que diz respeito ao zoológico, um volume de materiais organizado por Schafer sobre Berlin im Zweiten Weltkrieg [Berlim na Segunda Guerra Mundial] dá uma ideia do que lhe pode ter passado pela cabeça. O capítulo ‘Bombardeios de saturação entre os dias 22 e 26 de novembro de 1943’ contém passagens de dois livros (Katharina Heinroth, Mit Faltem begann’s - Mein Leben mit Tieren in Breslau, München und Berlin [Começou com as borboletas - minha vida com animais em Breslau, Munique e Berlim], Munique, 1979, e Lutz Heck,Tiere - Mein Abenteuer. Erlebnisse in Wildnis und Zoo [Animais - Minha aventura: experiências na selva e no zoológico], Viena, 1952), nos quais se obtém uma imagem da devastação do jardim zoológico por esses ataques. Bombas incendiárias e botijões de fósforo puseram fogo em quinze construções do zoológico. A casa dos antílopes e das feras, o prédio da administração e o casarão do diretor foram completamente incendiados, a casa dos macacos, o prédio de quarentena, o restaurante principal e o templo hindu dos elefantes, seriamente danificados ou destruídos. Um terço dos 2 mil animais que ainda restavam depois da evacuação morreu. Veados e macacos se soltaram, pássaros escaparam pelos tetos de vidro quebrados, ‘surgiram boatos’, escreve Heinroth, ‘de que leões dispararam em fuga até as proximidades da Igreja Memorial do Imperador Guilherme; enquanto, na verdade, eles jaziam, asfixiados e carbonizados, dentro de suas jaulas’. Nos dias seguintes, uma mina aérea arrasa o precioso edifício de três andares do aquário e o pavilhão de trinta metros de comprimento dos crocodilos, juntamente com a paisagem artificial de mata virgem. Agora encontravam-se lá, escreve Heck, entre blocos de cimento, terra, cacos de vidro, palmeiras e troncos de árvore derrubados, lagartos gigantes se contorcendo de dor na água rasa ou caindo pela escada de visitantes; enquanto, no fundo, pela abertura de uma porta escancarada pela explosão, penetrava o clarão vermelho do fogo de Berlim que sucumbia. Também foram horrendos os trabalhos de desobstrução. Os elefantes que morreram em seus estábulos tiveram que ser despedaçados ali mesmo nos dias seguintes, sendo que, como conta Heck, homens se arrastavam dentro das caixas torácicas dos paquidermes e revolviam montanhas de tripas. Essas imagens de horror nos deixam especialmente estarrecidos porque rompem os relatos do sofrimento vivido pelos seres humanos, em certa medida pré-censurados e estereotipados. E pode ser que o terror que nos assoma ao lermos passagens como essas também decorra da lembrança de que o zoológico, que surgiu em toda a Europa graças à necessidade de demonstração do poder principesco e imperial, ao mesmo tempo pretendia ser a reprodução do jardim do paraíso. Constata-se sobretudo que as descrições da destruição do zoológico de Berlim, que de fato sobrecarregam o sensório do leitor médio, só não provocaram nenhum escândalo porque provêm da pena de especialistas, que, como se pode verificar, nem mesmo nas circunstâncias mais extremas perdem a razão, sequer o apetite, pois, relata Heck, ‘os rabos de crocodilo, cozidos em grandes recipientes, tinham o gosto de carne de galinha gordurosa’, e mais tarde, prossegue ele, ‘o presunto e a linguiça de urso foram para nós uma iguaria’”.
– Winfried Georg Maximilian Sebald (1944-2001), Literatura e Guerra Aérea, tradução de Carlos Abbenseth e Frederico Figueiredo.

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