sábado, 14 de março de 2015

PORQUE AGORA INÊS É MORTA - conto completo

PORQUE AGORA INÊS É MORTA

“Eu sei que ela nunca mais apareceu
Na minha vida, na minha mente novamente”
– Cidade Negra, “À Sombra da Maldade”, Sobre Todas as Forças, 1994.


ESPERAVA A MAIS DE UMA HORA NA FRENTE DO ESCRITÓRIO DA TRANSPORTADORA, NÃO FUMAVA ANTES MAS AGORA COM UM CIGARRO NA MÃO. Chuva, muita chuva. Quanto tempo que não chovia daquele jeito? Não lembrava, queria poder lembrar. Sapatos e calças molhadas, a capa de chuva preta, presente dela enquanto ainda namorados. Alguns carregadores e até o encarregado pediram para ele ficar onde não molhasse, não foram ouvidos, “ah, foda-se”. Dava espaço para os caminhões, picapes e carros menores passarem. E começando a anoitecer não-lentamente, ainda a chuva e agora alguns trovões. Quanto tempo da última vez das mãos dela nas dele, e aquele sorrisos como as nuvens e os olhos como céu? Quanto tempo do queixo dela a seu ombro e o nariz ao ouvido até à lateral de seu queixo? E ela acordando a seu lado? Quanto tempo?
Ele veio lá longe, já no sobretudo e a capa de chuva prestes a ser aberta, era impassível à chuva, como se ela não estivesse lá ou se fosse afeito à ela de tanto tanto tempo. Soubera que ela havia lhe arrumado o emprego e ele do Norte do país até aqui, e então tomá-la para si. Todos já falando, comentando, apontando para ele. Não dormia mais, não pensava mais, não comia mais, que dirá sair da casa dos pais para onde voltara depois dela o deixar sem dizer palavra – faltava ao trabalho, ia somente para fazer número, olhando para a tela do computador ainda desligado. Ele o festeiro e mulherengo e recém-formado em Letras na Federal do Pará e então aqui. Ela uma vez dele, que ainda queria como dele e, principalmente, com ele. À direção dele em passos curtos, “esse puto anda rápido”. O viu parar e um momento estático, a sua mão à arma à cintura debaixo do casaco, tremia, ele virou, estava iluminado e podia ver a parte do rosto não coberta pelo gorro do sobretudo e pela barba, os olhos negros de filme de terror, inquietos e enlouquecidos, um passo à frente. Tremia tanto que não conseguiu tirar a arma, um passo à frente. “Ele vai me matar”, um passo à frente. O coração queria sair pela boca, um passo à frente. Se arrependeu por estar lá, um passo à frente. Queria poder dar um passo ou dois para trás, um passo à frente. Frente à frente.
Miguel, eu creio.
O dito balançou a cabeça afirmativamente.
Pensei que você não ia aparecer. Eu te pago um café. Vamos.
Miguel estranhou vê-lo cumprimentar muitos no local e então sentarem. Fora do sobretudo, vira que era menor que ele, em estatura e largura, podia quebrá-lo ao meio se não visse as fotos das competições de judô e medalhas subsequentes, repensou. todavia olhou a careca reluzente e barba de alguns fios já brancos já a ponto de trançada e pensou que judô seria a última coisa que usaria contra ele caso levantasse a mão. “Por favor”, ele pediu para que sentasse, antes que o fizesse e soltasse a gravata e abrisse o primeiro botão da camisa, “o lugar é ótimo, o único defeito é não poder fumar aqui dentro”, a moça bem magra levou os dois cafés e deixou o pote de açúcar entre os dois. O dito queria poder tirar o caso mas veriam o revólver e o caos estaria instalado, viu o barbudo escrever algo em um bilhete e lhe entregar, “coloque a arma dentro do casaco e coloque o mesmo na cadeira do seu lado”, ficou constrangido e envergonhado pela falta de tato e teve certeza de que não teria chance contra ele – casaco sobre a cadeira, revólver no bolso.
Veio falar sobre a Paulina, não?
Miguel em silêncio.
Olha, eu sei que tu estás puto, eu mesmo estaria, ela me explicou a situação quando eu cheguei, toda a situação. Pelo menos a parte dela, primeiro gole no café, está ótimo para esta chuva.
Acho que tu ainda não tens gravidade da situação, ela ainda é minha esposa e tu não sabes o que estão falando de mim por ai...
Tsc, ei. Eu sei, eu não sou surdo, eu não sabia como te encontrar mas sabia que tu ias dar as caras mais cedo ou mais tarde depois que eu aparecesse e tome o seu café. Eu sei que tu ainda a amas, ainda gosta muito dela, quer que tudo volte como era antes, mas... Rapá, vai por mim, ‘tá foda, isso não acontecer, nunca volta a ser como era antes, ela vai ter os dois pés atrás contigo pra tudo, mesmo que tu faças tudo certo. Te falo como voz da experiência.
Tu não sabes... O que a minha família fala. Um homem na casa dela...
Por pouco tempo.
... De uma mulher sozinha...
Não é por culpa dela.
... Casada com um filho de uma família tradicional...
(Altenor riu) E riu alto! Cotovelos à mesa, punho fechado à palma d’outra mão, de frente ao sul-rio-grandense que podia sentir o sorriso demoníaco por baixo da barba que considerava sinal de falta de higiene e respeito pessoal e com terceiros.
Rapá, se fosse pra tá comendo a tua mulher, eu já tava andando de mãos dadas com ela por ai e tirando fotos a rodo e postando por ai na internet e mostrando pros meus pares lá de Ananindeua e Belém. ‘Tá vendo essa morena aqui comigo? Ela ‘tá fazendo o mestrado na porra da Federal do Mato Grosso e vim aqui presse outro pólo de fim de mundo de país que a gente vive juntar o máximo de grana pra ir ficar com ela. Ela. É. A. Mulher. Da. Minha. Vida. Entende isso? Eu sei que entende, tu fizestes a mesma coisa pela Ana Paulina. Não foi? A única vez que encostei nela foi quando ela me abraçou quando nos vimos na rodoviária e daí nunca mais. Eu sequer a olho nos olhos.
É mentira!

É, ele veio.
E então?
Conversamos. Tentamos conversar.
Hum.
E a reação dele não foi das melhores.
Eu te falei que ele não ia acreditar nessa balela, não?
Porque eu simplesmente não fico admirado?
Não vão demorar para achar a arma pelas impressões digitais.
Uma arma? Ele ‘tava com uma arma?
Eu não fico admirado, olha...
Porra...
E agora...?
Ei.
Espera... Ele apontou a arma procê?
Não, a arma caiu do casaco e atingiu um senhor.
Jesus!
E agora?
Agora fudeu muito valendo pro lado dele, principalmente se o velho tiver morrido. Ai nada nesse mundo ajuda o cara, ainda mais sem porte de arma.

Ele foi preso cerca de três dias depois, o senhor morrera no caminho ao hospital. Impressões digitais na coronha, número da arma raspado, origem desconhecida, mas já estava sendo procurada por ter sido usada em dois assaltos com tiro e mais uma execução. Como previsto, carregadores, motoristas, encarregados e tantos outros o reconheceram, fora preso em um bar por civis à paisana atrás de outro suspeito que fora visto lá pela última vez. “Não devia ser assim”, ela repetia todas as noites antes de dormir, quando dormia, cabeça ao travesseiro, escuridão, o mesmo filme passando rente a seus olhos anis. “Altenor?”, o braço moreno sobre o tórax alvo até a mão alcançar o pulso.
Sim, Annie?
E agora?
Agora tu continuas.
Não era pra ser assim.
Nunca é como pensamos.
Annie?
Oi?
Eu gosto de como seus olhos azuis brilham quando tu falas.
ela sorriu




:: para Graziela Inês Jacoby, de Santa Maria do Rio Grande do Sul ::

:: 13 de março de 2015 ::

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