terça-feira, 17 de novembro de 2015

“Demant lembra que, cada uma a seu modo, duas sociedades muito diferentes, mutuamente hostis, mas intimamente ligadas, estão alcançando constelações ideológicas semelhantes. Poderia o paralelismo nas escolhas de identidade que os confronta servir como ponte para o diálogo? Enquanto os paralelos entre a evolução cultural de ambas as sociedades são apenas incidentais, os obstáculos permanecem formidáveis. Se depois de Israel também os palestinos tiverem a possibilidade de cruzar o patamar de Estado, estaria armado o cenário para um declínio do nacionalismo. O que virá em seguida? Dois modelos mutuamente exclusivos de identidade coletiva, um baseado em religião e outro em democracia pluralista, estão lutando pela ascensão em ambas as sociedades. Essas semelhanças estruturais são precondições indispensáveis para uma aproximação cultural dessas comunidades. Ainda que influências culturais globais e regionais estejam mais fortes em todo lugar, e o verdadeiro conteúdo de cada identidade seja diferente em cada sociedade, a evolução ideológica tanto de Israel quanto da Palestina será fortemente dependente do que acontece com seu vizinho. Segundo Demant, uma comunicação israelense-palestina baseada em autêntico diálogo só será possível entre aquelas forças de cada sociedade que optarem por uma identidade coletiva democrática não religiosa. A reaproximação cultural israelense-palestina, hoje uma miragem distante, tornar-se-á uma opção apenas quando a identificação nacional de ambas as nações for menos fanática e menos exclusiva, e quando a opção democrática obtiver uma vitória decisiva sobre o fundamentalismo religioso.
Demant acha que, no longo prazo, Israel não será capaz de sobreviver como Estado judaico. Ou manterá sua identidade oposicionista ou será vencido num confronto com um inimigo maciçamente mais numeroso, no momento em que o mundo árabe muçulmano supere seu atraso tecnológico. Ou, alternativamente, Israel modificará internamente sua posição, transformando-se num Estado ‘normal’ com uma maioria judaica e simbolismo coletivo judaico, mas sem a estrutura discriminatória que hoje o caracteriza. Este seria o melhor resultado para todos os envolvidos, mas pressuporia uma sutil interação entre o processo de paz e os concorrentes ideológicos internos. Conclui que, paradoxalmente, o pós-sionismo pode ser o único modo de salvar pelo menos o núcleo moral mínimo do sionismo.”
– Gilberto Dupas, na introdução de Israel-Palestina: a construção da paz vista de uma perspectiva global, 2002, pgs.13-14.

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