domingo, 13 de dezembro de 2015

A HISTÓRIA DA VIDA DE UM CARACOL DE JARDIM [a primeira metade]

“the truth that war may be, among many other things, the perpetuation of a culture by its own means.”
– John Keegan, War in Human History, 1993.


“PARA O CENTRO DO TATAME: CAMILA VALVASSORI BITTENCOURT, DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA, E TALIA RICIERI CASTRO E SILVA, DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA.” A sul-rio-grandense levantou-se e pegou o Men das mãos do sensei e preparou na cabeça enquanto este o amarrava, a paranaense amarrou os cabelos cortados à altura dos ombros e já sem volume para poder colocar o Men. Ambas de olhos castanhos como pedras em chamas acesas que não podiam ser ignoradas mesmo elas com os elmos de combate, Bittencourt batia no tsuka  da shinai , ora com o indicador e o médio, ora com o anelar e o mindinho, sempre mantendo a estabilidade da arma com o polegar. Ricieri girava a sua em uma das mãos com a mesma precisão e velocidade que um Ulrich ou um Bonham giravam a baqueta entre uma música e outra. Ambas para o caminho do tatame. O cumprimentaram. Adentro.
À frente, o juiz as olhou, elas se posicionaram. Sem mais dentes rangendo, respiração pela boca, caretas, sorrisos. “Mas quem diria”, alguém diria ao vê-las frente à frente, a um ano e quatro meses atrás simulando combate com cabos de vassouras em um dos terrenos a céu aberto do campus Itaperí da Universidade do Estado do Ceará. Os cabelos presos praticamente à base, pés esquerdos à frente, Camila segurava a dianteira do tsuka com o indicador e o médio e a traseira com o anelar e o mindinho, Talita o portava com polegares, revezando os outros dedos. A primeira inexpressiva, a segunda passava a língua entre os lábios, ambas com os olhos dentro dos da adversária. “Vocês não tão sentindo o ar mais pesado, não?”, o Rodolfo falou. Estava realmente muito quente (quando no Ceará não ‘tá muito quente?), mas parecia estar bem pior, mas eu não queria sair dali pra ver que diabo ia acontecer. Era realmente novo pra todo mundo as duas serem kendokas  – e de longa data, já que “poozers não seguram shinais desse jeito”, alguém observou (alguém nerd, pra fazer esta referência na observação). Mas, a meu ver, foi bem melhor vê-las ano passado, na UECE, do que aqui no Brasileiro de Kendô, em Belém; tanto vim com o Palavras-Prateadas pra tirar a cabeça dele do TCC e com a Fernanda pra tirar a cabeça dela da não-aprovação na prova do MSc.-PPGLit-UFPA (que eu também não tinha passado, diga-se logo) quanto pra Lynn conhecer “as cunhadas” (ingressos a preços módicos também ajudaram a execução da empreitada). Entretanto, eu não devia estar surpreso das duas chegarem à final sem dificuldades, não depois de ver como elas digladiaram ano passado: Camila é mais focada a ataques certeiros a men-uchi e Talita em contra-ataques que abram espaço para ataques a tsuki ou a kote-uchi, todavia não conseguiu muito, uma vez que Camila já havia aprendido sua tática quando mediu com os olhos a distância da shinai de Talita e seus braços até ela.
Uma das minhas certezas nessa vida é que as duas não são estúpidas. Logo, elas não perderam tempo se estudando para lutar: já haviam “combatido” no ENEH e se visto lutar com outrem nesse mesmo campeonato brasileiro que estava rolando no final de semana último. Quando se trata de kendô, deve-se ter em mente que este definitivamente e absolutamente não é um esporte para malandros – ninjas eram malandros, samurais não. Sim, as duas eram malandras natas, nunca se sabia o que estavam aprontando por trás dos tenros sorrisos e doces olhares. Mas bastou um espírito-de-porco dizer “ah, a gente podia brincar de samurai” que as feições delas mudaram completamente. Depois de uma... Meia hora talvez, por ai, apareceram com cabos de vassoura e canetas-piloto, demarcando posições nestas, como se fossem sinais e então lá, adiante uma à outra, e nós como plateia, cigarros e baseados e bebidas às mãos (vou falar disso em outro texto que ‘tô pra terminar faz um tempão e preciso terminar inclusive). Elas “eram elas mas não eram mais elas naquele momento”, sabe? Eu sei que sim. Os olhares, as posições, as formas que seguravam “as espadas” com uma só mão... Não. Ambas na posição do cavalo, Camila portava à “espada” à sua frente e Talita o portava com polegares e indicadores à sua frente, à altura dos joelhos.

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