quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

“A cultura depende de como a definimos. Se separarmos cultura de civilização, todos os povos, até os mais primitivos, têm cultura, porque a condição do homem é cultural. E tudo o que se seguiu: até a Teoria da Relatividade de Einstein, desde a faísca que o homem obteve do atrito de duas pedras. A evolução desse processo aquisitivo, que eu não diria que é desenvolvimentista, tem sido uma marcha lenta e, muitas vezes, extremamente cruel. A consciência do que significa cultura, o reconhecimento de valores e o que eleva o ser humano acima de sua condição animal, sem dúvida, constitui um dado que existe. A preocupação de ordem ética é outro dado e é primordial. De qualquer maneira não podemos colocar o plano do universo em que se move o homem de hoje no mesmo plano que existia em qualquer outro período. Primeiro, porque as outras épocas desapareceram, e não dispomos de outros elementos de comparação. Segundo, porque suas produções foram incorporadas e transferidas pelas gerações subsequentes, haja vista o atual mundo digital que é quase o nosso habitat. Além disso, nós não dispomos de referenciais absolutos. Dizem que foi assim… Foi de fato? Tomar os relatos históricos como pura objetividade já está demonstrado que não é uma boa medida, porque a objetividade histórica durante séculos se concentrou na formalização de certos aspectos, somente isso. E seria somente isso? A moderna história das mentalidades está pondo em xeque essa visão e destacando outros aspectos. Eles existiam, mas se dizia que a história das marginalidades na vida em sociedade era apenas o relato de fatos e eventos que não tinham importância. Veja, a tecnologia existe desde os primeiros passos do homem na Terra. Não é só a invenção do foguete. Cortar uma lasca de pedra já é tecnologia. A consciência e o avanço desse conhecimento e dos valores que ele implica são coisas fundamentais. Nesse sentido, os instrumentos para isso são de máxima importância para a vida humana. Se a pólis, no sentido geral, não só como cidade no sentido estrito, mas como vida em sociedade, é uma realidade inegável, ela implica necessariamente ethos. Ethos não é apenas moral, é política. A consciência em relação a isso é produto de desenvolvimento para o qual os diferentes instrumentos da cultura são essenciais. E não apenas o livro. Para não mencionar o papel da ciência, da filosofia, dos saberes e das diferentes artesanias na ampliação das práticas e das ferramentas cognitivas, pensemos nas artes: dança, música, pintura, escultura, teatro etc., todas elas, isoladamente ou em conjunto, interagem e afetam visceralmente nossas experiências e vivências e o horizonte de abrangência de nossa mente.”
- Jacó Guinsburg, em entrevista para a Revista Pesquisa Fapesp em novembro de 2013

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