sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

“No sentido comum, anarquia sempre foi o caos, a desordem. A palavra transformou-se em sinônimo de bagunça e os cronistas e historiadores de hoje jamais lograram repor o significado veraz de um passado glorioso e, no mínimo, construtivo. Por paradoxal que pareça, anarquia não é bagunça, muito menos ordem. Mas não é com uma pequena dose de purgante que se limpam quase dois séculos de distorções acumuladas na cabeça dos homens e alimentadas dia a dia. Também, não há dúvida, foram os próprios anarquistas a colaborar para a imagem que se faz deles; como nunca quiseram tomar o poder, é óbvio que jamais iriam fazer de suas representações as imagens oficiais nas mentes dos homens.
Os anarquistas, se é que se pode encontrar algo de comum entre eles, têm em mira apenas o indivíduo, sem representantes, sem delegações, produtor, naturalmente em sociedade. Positivamente, eles preconizam uma nova sociedade e indicam alguns meios sobre isso.
Como em todas as revoluções, diria Camus, a liberdade está no seu princípio. A justiça também, inimaginável, sem a liberdade. Mas chega o momento do terror, da violência, do assassínio; é a justiça cobrando e exigindo a suspensão da liberdade. O paradoxo deixa a pergunta da inevitabilidade da revolução e expulsa do rosto dos revolucionários o ar de felicidade. Quase todos os anarquistas procuraram a revolução, alguns foram violentos, outros simplesmente apoiaram a violência.
(...)
Não se pode negar que ao combater o autoritarismo e todas as formas de autoritarismo os anarquistas tocaram o cerne do problema da sociedade. A ingenuidade das teorizações e a fraqueza da doutrina que nunca se apresentou como um corpo sistemático completo e acabado é da gênese do próprio anarquismo. O Estado, a autoridade que se sobrepõe ao individuo e o transforma em um verme, num réptil submisso, cresceu e tomou forma tanto no capitalismo quanto no próprio socialismo.
(...)
Mas deve-se argumentar também que sem os anarquistas singelos e aventureiros Marx não teria preconizado o fim do Estado após a ditadura do proletariado e a abolição das classes sociais. O Estado ainda não foi abolido em parte alguma, as classes sociais na URSS “acabaram” por um decreto de Stalin, mas a autoridade continua.
E o anarquismo, esta paradoxal mescla de positivismo com idealismo, jamais conseguiu formar um organismo aglutinador e impulsionador de seus objetivos; apesar de seus objetivos, não logrou sequer abalar as estruturas do sólido Estado moderno. Eis seu fracasso e seu fascínio.”
– Caio Túlio Costa, “A Ingênua Lucidez”. IN: O que é Anarquismo. São Paulo: Brasiliense, 2004 – (Coleção Pequenos Passos; 5)

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