domingo, 16 de abril de 2017

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE – “A BOMBA”

“A bomba 
é uma flor de pânico apavorando os floricultores 
A bomba 
é o produto quintessente de um laboratório falido 
A bomba 
é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles 
A bomba 
é grotesca de tão metuenda e coça a perna 
A bomba 
dorme no domingo até que os morcegos esvoacem 
A bomba 
não tem preço não tem lugar não tem domicílio 
A bomba 
amanhã promete ser melhorzinha mas esquece 
A bomba 
não está no fundo do cofre, está principalmente onde não está 
A bomba 
mente e sorri sem dente 
A bomba 
vai a todas as conferências e senta-se de todos os lados 
A bomba 
é redonda que nem mesa redonda, e quadrada 
A bomba 
tem horas que sente falta de outra para cruzar 
A bomba 
multiplica-se em ações ao portador e portadores sem ação 
A bomba 
chora nas noites de chuva, enrodilha-se nas chaminés 
A bomba 
faz week-end na Semana Santa 
A bomba 
tem 50 megatons de algidez por 85 de ignomínia 
A bomba 
industrializou as térmites convertendo-as em balísticos 
interplanetários 
A bomba 
sofre de hérnia estranguladora, de amnésia, de mononucleose, 
de verborréia 
A bomba 
não é séria, é conspicuamente tediosa 
A bomba 
envenena as crianças antes que comece a nascer 
A bomba 
continua a envenená-las no curso da vida 
A bomba 
respeita os poderes espirituais, os temporais e os tais 
A bomba 
pula de um lado para outro gritando: eu sou a bomba 
A bomba 
é um cisco no olho da vida, e não sai 
A bomba 
é uma inflamação no ventre da primavera 

A bomba 
tem a seu serviço música estereofônica e mil valetes de ouro, 
cobalto e ferro além da comparsaria 
A bomba 
tem supermercado circo biblioteca esquadrilha de mísseis, etc. 
A bomba 
não admite que ninguém acorde sem motivo grave 
A bomba 
quer é manter acordados nervosos e sãos, atletas e paralíticos 
A bomba 
mata só de pensarem que vem aí para matar 
A bomba 
dobra todas as línguas à sua turva sintaxe 
A bomba 
saboreia a morte com marshmallow 
A bomba 
arrota impostura e prosopéia política 
A bomba 
cria leopardos no quintal, eventualmente no living 
A bomba 
é podre 
A bomba 
gostaria de ter remorso para justificar-se mas isso lhe é vedado 
A bomba 
pediu ao Diabo que a batizasse e a Deus que lhe validasse o batismo 
A bomba 
declare-se balança de justiça arca de amor arcanjo de fraternidade 
A bomba 
tem um clube fechadíssimo 
A bomba 
pondera com olho neocrítico o Prêmio Nobel 
A bomba 
é russamenricanenglish mas agradam-lhe eflúvios de Paris 
A bomba 
oferece de bandeja de urânio puro, a título de bonificação, átomos 
de paz 
A bomba 
não terá trabalho com as artes visuais, concretas ou tachistas 
A bomba 
desenha sinais de trânsito ultreletrônicos para proteger 
velhos e criancinhas 
A bomba 
não admite que ninguém se dê ao luxo de morrer de câncer 
A bomba 
é câncer 
A bomba 
vai à Lua, assovia e volta 
A bomba 
reduz neutros e neutrinos, e abana-se com o leque da reação 
em cadeia 
A bomba 
está abusando da glória de ser bomba 
A bomba 
não sabe quando, onde e porque vai explodir, mas preliba 
o instante inefável 
A bomba 
fede 
A bomba 
é vigiada por sentinelas pávidas em torreões de cartolina 
A bomba 
com ser uma besta confusa dá tempo ao homem para que se salve 
A bomba 
não destruirá a vida 
O homem 
(tenho esperança) liquidará a bomba.”
– Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), “A Bomba”. IN: Lição de Coisas, 1962.

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